quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

O que pensa Jussara Hoffman?



"ENSINO:
Nota zero para as provas
A pesquisadora Jussara Hoffmann discorda do sistema tradicional de avaliação utilizado nas escolas e sugere outros caminhos...
Zezinho tirou seis na prova e precisa melhorar. A Marcinha tirou nove e foi muito bem. O Paulinho está de parabéns: tirou 10. Quem passou pelos bancos escolares conhece bem esse velho discurso que sempre é feito pelo professor quando vai divulgar o resultado das avaliações para seus alunos. As notas são dadas como numa classificação e cada aluno é julgado de acordo com o desempenho no teste. O tempo passou, o mundo se transformou e a escola, que sente as mudanças lentamente, não ficou diferente. Quando a matéria são as práticas avaliativas, a pesquisadora gaúcha, Jussara Hoffmann, dá nota zero para o atual modelo e propõe um jeito diferenciado de avaliar o processo de aprendizagem que se dá em sala.
Batizado de avaliação mediadora, os estudos da pesquisadora nem são tão novos assim Jussara já trabalha com essa perspectiva há 25 anos e foram reafirmados por ela, na última semana, durante uma palestra realizada para estudantes de Pedagogia da Universidade Norte do Paraná (Unopar). No mundo, eles são ainda mais antigos datam do início da década de 1970 , estão assentados nas teorias de intelectuais como Jean Piaget e L.S. Vigotski e têm por referência o papel do professor no processo avaliativo. ''Esse modelo pretende enfatizar a importância da intervenção da avaliação como uma intervenção pedagógica no acompanhamento do aluno. A avaliação classificatória (tradicional) tende muito mais a um julgamento do desempenho do estudante.
O professor ainda se sente muito no compromisso de, ao avaliar o aluno, responder para a sociedade, para escola, para os pais, para o próprio aluno e para ele próprio, se o aluno aprende ou não aprende'', observa Jussara. Arquivo Folha/14/03/2004
Dentro de um novo modelo, o papel do professor é ampliar as estratégias para apreensão do conteúdoJussara Hoffmann:‘‘É preciso investigar de que jeitos os alunos aprendem e que outras formas existiriam para ensiná-los’’
Já essa outra forma de avaliação preocupa-se não em descobrir se o aluno aprendeu ou não, pois essa é uma discussão encerrada uma vez que todos os alunos aprendem sempre e muitas coisas. A avaliação mediadora ultrapassa esse limite e investiga questões outras bem mais fundamentais para a educação: ''é preciso investigar de que jeitos os alunos aprendem, em que tempos aprendem, com que outras pessoas aprendem, que outras formas existiriam para ensiná-los''. ''Este é o mister, a função, do processo avaliativo na escola'', ensina a pesquisadora.
O papel do professor, nessa perspectiva, é o de promover novas estratégias, possibilidades e alternativas pedagógicas para ampliar as possibilidades de apreensão do conteúdo. As avaliações passam a ser usadas não para classificar em ordem decrescente os alunos mas a interpretação do conjunto de respostas dadas serve para o educador replanejar, interativamente, suas ações pedagógicas para possibitar que toda a classe evolua. ''Mediação é desafio, é diálogo de pensamento, é pensar como o aluno pensa e provocá-lo no sentido de desafios significativos'', aponta Jussara.
O caminho das pedras pressupõe analisar a avaliação sob três aspectos principais que são: análise epistemológica, ou seja, como se dá a aprendizagem de uma dada noção, em que medida o aluno está compreendendo tal noção e como fazer para facilitar a compreensão; análise didática que consiste em definir se as estratégias e recursos utilizados foram adequados à classe, à estrutura da escola e ao tempo disponível; análise relacional que se presta a apurar se o professor se relaciona bem com os alunos, se seus alunos também têm um bom relacionamento entre si e se todos estão bem adaptados à escola.
Mas por que essa orientação já não é regra nas escolas brasileiras?
Na avaliação da pesquisadora a avaliação mediadora não foi absorvida porque a educação é, por natureza, a mais conservadora entre todas as ciências. ''Ela traz essa cultura da tradição, do saber histórico e o professor ainda está muito preso à sabedoria, às suas certezas. A própria sociedade cobra isso dele'', assinala Jussara. Além disso, continua a educadora, a sociedade nutre uma ansiedade em relação às futuras gerações e vê na educação a saída para suas crises. E o resultado é que as famílias tendem a reproduzir e valorizar o modelo que tiveram. ''O pai tende a querer reproduzir em relação a seu filho a escola que teve. Ele vai querer que o filho seja o modelo do que foi. E com isso, a educação está sempre uns trinta anos defasada de toda e qualquer transformação'', conclui. "

Luciano Augusto - Reportagem Local - Folha de Londrina Unopar na Mídia

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